Adeuzina, a Lili — a história dela
Relato de Adeuzina, preservado como relato de quem contou.
Nascida em Serrolândia, na Bahia, em 15 de agosto de 1939, primogênita de José Martinhano e Maria de Olinda, Adeuzina criou oito filhos praticamente sozinha depois que o casamento se encerrou em 1972 e as propriedades foram vendidas sem o conhecimento dela. Trabalhou como doméstica, nunca aprendeu a ler, cuidou da mãe acamada, criou netos e a enteada, e em 1979 saiu do aluguel comprando um terreno em Suzano com os filhos Eugênio e Carlos. Morreu em Suzano em 22 de junho de 2010, aos 70 anos, depois de uma celebração familiar — e no pátio do hospital Sérgio e Irene viram uma árvore inteira tomada por centenas de periquitos, os pássaros que ela mais amava.
Adeuzina, a Lili — história cantada pela família. Em 15 de agosto de 1939, em Serrolândia, na Bahia, nasce Adeuzina Maria dos Santos Reis, que o mundo chamou de Lili. Primogênita de José Martinhano e Maria de Olinda, nasceu ali o alicerce de uma casa numerosa, com mais oito irmãos para cuidar — papel de mestre que por toda a vida ela soube desempenhar. Mulher de fé inabalável, sem barreiras para o seu louvor: pela comunidade católica e pela evangélica caminhou com respeito e amor. Sua estrada foi marcada pela dignidade do trabalho do chão. Como doméstica e garim, tirou o sustento com as próprias mãos. A escola não lhe deu a chance, as letras não pôde aprender, mas tinha a sabedoria que livro nenhum é capaz de escrever: a ciência viva da sobrevivência e o milagre de guiar oito filhos. Com a ajuda de sua irmã Elza, um novo passo ela deu: com seu segundo namorado, o matrimônio aconteceu em 1959. Casou-se com Manuel Nunes dos Reis. Mas o tempo separou — no ano de 1972 esse ciclo se encerrou. E logo após foi surpreendida: suas propriedades vendidas sem o seu conhecimento. Assim teve que morar de aluguel, em vários locais precários. Tentou mais duas vezes o casamento, mas o sucesso não veio ali. Foi quando a responsabilidade inteira caiu sobre as costas de Lili. Chefe de um lar praticamente sozinha, enfrentando a tempestade, ela transformou cada momento de dor em pura vitória. Mas no caminho difícil ela nunca esteve em total solidão. Sua irmã Almeirinda e o cunhado Nogaé estenderam a mão. Os filhos mais velhos também ajudaram a carregar o peso do dia. Em 1979, com os filhos Eugênio e Carlos, com muito sacrifício conseguiu sair do aluguel, comprando terreno em Suzano. A generosidade sem limite de Lili tudo floria. Cuidou da mãe acamada com amor profundo e sagrado, e com o mesmo carinho criou netos e a enteada ao seu lado. As delícias da vida ela encontrava na mais pura simplicidade. Mãos calejadas que cuidavam das plantas com delicadeza e verdade. Na televisão, o sorriso de Silvio Santos era sua grande afeição; no rádio, Luiz Gonzaga trazia o ritmo do seu coração. No paladar, a tradição: buscou forte a melancia para refrescar. E quando a doença batia, ela tinha o seu próprio jeito de curar — receitava Vick VapoRub, babosa e os chás que o quintal dava. Mas eram os periquitos e suas cores que a alma dela mais amava. Seu maior desejo na terra sempre foi ver os filhos em união. E hoje o sucesso dessa semente é a prova da sua missão. Sua linhagem mudou; os frutos cresceram fortes e sem temor: protéticos, engenheiros, psicólogos, técnico, advogada, programador, mecânicos, enfermeiras, pesquisadora, empresários, professor e estudantes. Profissionais que a honram diariamente pelo que ela plantou. Em Suzano, no dia 22 de junho de 2010, o relógio parou. Aos 70 anos de idade, a guerreira enfim descansou. Como último desejo atendido, após uma celebração familiar, ela partiu rapidamente, sem tempo para o sofrimento. No pátio do hospital, Sérgio e Irene presenciaram o sinal do infinito: uma árvore inteira se encheu, tomada por centenas de periquitos. A natureza estava ali em peso, fazendo a guarda para o amor. E com um abraço e um beijo no coração de quem não para de lutar, para que mulher nenhuma desista nunca de caminhar. --- Observação de transcrição: o documento original chegou corrido, sem pontuação e com algumas palavras incertas. Foram mantidas como estavam: "garim" (a profissão), "Nogaé" (o nome do cunhado). Onde a grafia estava claramente truncada, foi restituída a palavra que o próprio texto repete adiante — é o caso de "periquitos". A conferência final é da família.
História cantada pela família. O documento original chegou corrido e com algumas palavras incertas, mantidas como estavam; a conferência final é da família.